sexta-feira, 22 de junho de 2007

Existe uma Língua no Pensamento?

"Não é preciso entender de óptica para ver bem..."
Bacon

Antes de ler o texto, responda a si mesmo a pergunta-título. Será que você, falante nativo do português, pensa em português? Será que o falante nativo do russo pensa em russo? Ou será que existe uma outra maneira para a ocorrência do pensamento e ele é "traduzido" por nós quando falamos?

Descartes diz que o que nos diferencia dos animais é a linguagem e a partir dela ele chegou a conclusão de que nós possuímos um espírito, uma contra parte interior que nos tira da categoria de autómatos. Em outras palavras, é através da linguagem que transmitimos nossos pensamentos, é essa contra parte interior que nos faz diferentes das máquinas que por comandos tem acções e reacções relativamente previsíveis ou "calculáveis". Chomsky, próximo da ideia de Descartes vai dizer que uma das principais funções da linguagem é a expressão do pensamento. Em nenhum momento, porém, os autores dizem que linguagem e pensamento são a mesma coisa. Se não me engano, Piaget e Vigotsky dizem algo sobre a natureza do pensamento e da linguagem e que ambos provém de "lugares" diferentes.

Bem, eis a proposta do texto: linguagem e pensamento não são a mesma coisa. Nós certamente não pensamos em nossa língua nativa. Pense na seguinte situação: Você acorda e percebe que está com fome/ Pensa em tomar café com leite e pães de queijo, mas lembra que você comeu todos eles na noite anterior/ Você teria de sair de casa para comprar mais/ Então, você decide não ir até o supermercado/ Escolhe comer outra coisa ou apenas tomar o café. Toda essa seqüência de decisões demoraria um bocado se fosse articulada sentença por sentença em sua língua nativa. Nós geralmente pensaríamos essas coisas sem articular frases em português.

Segundo Pinker, em seu ótimo livro O Instinto da Linguagem, acreditar que nós pensamos na nossa língua é um absurdo convencional. E dá um óptimo exemplo: "Todos tivemos a experiência de enunciar ou escrever uma frase, parar e perceber que não era exactamente o que queríamos dizer. Para que haja esse sentimento, é preciso haver um ‘o que queríamos dizer’ diferente do que dissemos". Quantas vezes não pensamos com frequência sobre um determinado assunto, mas na hora de falar sobre ele não conseguimos articular as palavras? Ou seja, não conseguimos traduzir do mentalês (definição de Pinker) para o português.

Existe a hipótese de que a linguagem e o pensamento estejam ligados e esta ideia está ligada a Sapir e a Whorf. Eles afirmam que é uma determinada língua que direcciona o nosso pensamento. Por exemplo, falantes da língua Wintu têm que colocar um ou outro sufixo em seus verbos para marcar 1) se o conhecimento que estão transmitindo foi aprendido por observação direta ou 2) se foi aprendido por "ouvir dizer". Mas isso não significa muito, pois será que os falantes do inglês, português ou espanhol não sabem se aprenderam algo por observação directa ou por terceiros? Claro que sabem. A língua, sendo Wintu ou não, não altera o nosso modo de pensar/ver a realidade.

Pinker trás alguns exemplos de pensamento sem linguagem: bebés, seria um deles, não podem pensar com palavras. Macacos muito menos, pois não tem capacidade para aprendê-las. Portanto, a língua do pensamento seria essa espécie de mentalês - que nos faz diferentes dos animais e das máquinas, que nos faz não-autómatos. E se é verdade que não existe tradução perfeita, faz sentido que existam alguns de nossos pensamentos que são melhores quando guardados connosco, quando não afirmados ou expressados. Mas aí, a discussão sai do campo da linguística e da proposta deste texto.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

A Semiótica e a Maldita Comunicação

"...Maldito seja o sol, ó Diana..."

SEMIÓTICA

Enquanto teoria, a semiótica realça a comunicação como geradora de significação. Com ela, constitui-se um novo conjunto de conceitos: signo, significação, ícone, índice, denotação, conotação, paradigma, sintagma. No centro está o signo. Ao estudo do signo chama-se semiótica, que compreende: 1) signo, 2) códigos ou sistemas, 3) cultura – presta atenção ao texto; considera o receptor ou leitor como possuidor de um papel activo. O signo é algo físico, perceptível aos nossos sentidos.

Porque considero importante a inclusão desta ciência nas indústrias culturais, incluo aqui elementos principais de textos pertencentes a Ferdinand de Saussurre, Adriano Duarte Rodrigues (1991), Roland Barthes (1981) e Charles Sanders Peirce (1978). Uma aplicação prática é o estudo das primeiras páginas dos jornais e dos seus títulos principais [a propósito ver o livro de Dinis Manuel Alves (2003). Foi você que pediu um bom título? Coimbra: Quarteto].

Ferdinand de Saussure (1857-1913)

Interessou-se pela linguagem e pela relação entre um signo (a palavra) e os outros signos. Para Saussure, o signo é uma realidade psíquica com duas faces, um objecto físico com um significante e um significado. O signo consiste, assim, num significante (imagem do signo; marca no papel ou elemento acústico) e num significado (conceito mental a que ele se refere).

Saussure definiu dois modos dos signos se organizarem em códigos. O primeiro é o paradigma, conjunto de signos donde se escolhe aquele que vai ser utilizado. O segundo é o sintagma, mensagem na qual os signos escolhidos se combinam. Exemplo: a ementa num restaurante. A estrutura da ementa tem uma entrada, um prato de carne ou peixe e uma sobremesa (o paradigma ou sistema). Dentro de cada um destes três elementos existe uma variedade de opções. Assim, cada cliente combina-as numa refeição; o pedido feito ao empregado é um sintagma.

Adriano Duarte Rodrigues

O autor tem uma atitude pedagógica quando distingue sinais e signos. Para ele, o sinal é o impulso que desencadeia um processo de transmissão com uma resposta adequada (casos dos termostatos no aquecimento central ou no frigorífico). Daí a informação enquanto medida estatística da probabilidade de ocorrência de um dado acontecimento. O estudo do sinal pertence ao limiar inferior da semiótica [estamos ainda no domínio da teoria matemática da informação]; por isso, estuda o código, o ruído e a redundância. Há ainda um limiar superior da semiótica, a concepção do mundo [Weltanschauungen], o domínio do mítico e do ideológico.

O professor situa o campo semiótico no meio desses dois limiares e define semiótica “como objecto de estudo as componentes expressivas ou significantes das manifestações culturais”. Mas, ainda segundo Rodrigues, toda a acção humana é significante, expressiva, pelo que a semiótica se serve do estudo de disciplinas como a sociologia, a economia ou a história. A semiótica é, assim, também o “estudo do arranjo, da organização específica que as manifestações do sentido apresentam”; ela é do domínio dos signos, entidades que se referem e/ou designam as coisas sob o modo de representação ou da cópia. Os signos possuem uma significação (ordem do conceito que permite compreender uma série de entidades particulares).

Adriano Duarte Rodrigues, como o faria Roland Barthes, parte de Ferdinand de Saussure, o pai da linguística, o qual se propôs distinguir entre parole (acto individual da fala) e langue (aspecto colectivo). A langue é de natureza institucional, arbitrária (fundada numa convenção) e linear (desenrolada no tempo). A língua constitui-se em dois tipos de relações: paradigmáticas e sintagmáticas. Além disso, uma aparente contradição mutável/imutável do signo linguístico resolve-se na oposição do aspecto sincrónico do sistema e a sua evolução diacrónica. Alguns destes temas seriam mais desenvolvidos no texto de Barthes.

Roland Barthes (1915-1980)

Este autor compara signo, sinal, índice, ícone, símbolo e alegoria, referindo a simultânea aproximação e distinção. Ora, o signo remete para a relação de dois termos ou elementos [relata] que implicam ou não a representação psíquica de um deles, a analogia, a imediatez do estímulo e resposta, a coincidência e a ligação. Deslocando-se para a figura do “pai fundador”, Saussure, este definiu signo como a união de um significante e de um significado, de uma imagem acústica e de um conceito.

A teoria do signo linguístico enriqueceu-se com o princípio da dupla articulação: 1ª articulação – unidades significativas, dotadas de sentido (palavras ou monemas), 2ª articulação – unidades distintivas, que participam na forma mas não têm um sentido (sons ou fonemas). A dupla articulação dá conta da economia da linguagem humana. O plano dos significantes constitui o plano de expressão e o dos significados o plano de conteúdos, ou a forma e a substância (obtido de empréstimo em Louis Hjelmslev).

Sobre o significado, Saussure marcou a sua natureza psíquica, chamando-lhe conceito: o significado da palavra boi não é o animal boi, mas a sua imagem psíquica. O significante é um termo puro, pois não se pode separar da definição de significado. A substância do significante é sempre material (sons, objectos, imagens). Há signos verbais, gráficos, icónicos e gestuais. O signo é talhado (biface) de sonoridade ou visualidade. A significação é um processo ou acto que une o significante ao significado e cujo produto é o signo. Na língua, o significado está atrás do significante e só pode ser atingido através deste: Se (significante)/So(significado).

Há um valor no signo, com dois termos: se se modificar um dos seus termos, modifica-se o sistema. Esses termos ou planos de valor no signo são: 1) sintagma, 2) associação (paradigma) [sistema, na linguagem de Barthes]. Cada termo fixa o seu valor da oposição com os que estão antes e depois. Na cadeia de palavras, os termos reúnem-se presencialmente. É o plano dos sintagmas. No plano das associações, as associações têm entre si coisas em comum, formam grupos em que existem relações diversas. Para Saussure, o sistema é uma série de campos associativos, ou determinados por afinidades de sons ou de sentido. A organização interna de um campo associativo ou paradigma chama-se oposição, relação ou correlação.

A linguagem humana, por ser duplamente articulada, comporta duas espécies de oposições – distintivas (entre fonemas) e significativas (entre monemas). Qualquer sistema de significação comporta um plano de expressão (E) e um plano de conteúdo (C). Há um plano de denotação e um plano de conotação. Um sistema conotado é um sistema cujo plano de expressão é ele próprio constituído por um sistema de significação. A sociedade desenvolve-se a partir do sistema da linguagem humana, sistemas segundos de sentido.

Curiosa a comparação de Saussure: cada unidade linguística é semelhante à coluna de um edifício antigo; essa coluna mantém uma relação real de contiguidade com outras partes do edifício (relação sintagmática). Se a coluna for dórica somos levados a compará-la com outras ordens arquitecturais, o jónico ou o coríntio (relação associativa, paradigmática ou sistemática). O plano associativo aproxima-se da língua como sistema; o sintagma aproxima-se da fala.

Em Elementos de semiologia (1981), editado inicialmente em 1964, Barthes definiu a semiologia como tendo “por objecto qualquer sistema de signos, sejam quais forem a sua substância ou os seus limites: as imagens, os gestos, os sons melódicos, os objectos e os complexos dessas substâncias que encontramos nos ritos, nos protocolos ou nos espectáculos constituem, senão «linguagens», pelo menos sistemas de significação”. Barthes ordenou os elementos fundamentais da semiologia em quatro rubricas: 1) língua e fala; 2) significante e significado; sistema (ou paradigma) e sintagma; 4) denotação e conotação.

Para o estudo do discurso dos media, dois desses binómios foram essenciais: significante/significado e denotação/conotação. A denotação é a significação óbvia, de senso comum, do signo. A conotação é quando o signo se encontra com os sentimentos e emoções dos utilizadores e com os valores da sua cultura. Numa fotografia, a denotação é aquilo que é fotografado; a conotação é a forma como algo é fotografado. A conotação é arbitrária e específica de uma cultura. Em O óbvio e o obtuso (1984:14-15), Barthes escreveu: “Qual o conteúdo da mensagem fotográfica? O que é que a fotografia transmite? Por definição, a própria cena, o real literal. (…) Existem outras mensagens sem código? À primeira vista, sim: são precisamente todas as reproduções analógicas da realidade: desenhos, pinturas, cinema, teatro. Mas, efectivamente, cada uma destas mensagens desenvolve de uma maneira imediata e evidente, além do próprio conteúdo analógico (cena, objecto, paisagem), uma mensagem complementar, que é aquilo a que se chama vulgarmente o estilo da reprodução; trata-se, então, de um sentido segundo, cujo significante é um certo «tratamento» da imagem sob a acção do criador, e cujo significado, quer estético, quer ideológico, remete para uma certa «cultura» da sociedade que recebe a mensagem. Em suma, todas estas «artes» imitativas comportam duas mensagens: uma mensagem denotada, que é o próprio analogon, e uma mensagem conotada, que é o modo como a sociedade dá a ler, em certa medida, o que pensa dela”.

[leituras: Roland Barthes (1981). Elementos de semiologia. Lisboa: Edições 70 (originais de 1964); Roland Barthes (1984). O óbvio e o obtuso. Lisboa: Edições 70 (original de 1982)].

Charles Sanders Peirce (Écrits sur le signe, 1978: 147-165) (não vim em português ainda, mas tem e há em inglês por ai )

Para o filósofo e lógico Peirce (1839-1914), um signo ou representante é o primeiro elemento de uma relação triádica que estabelece ligação a um segundo elemento chamado objecto e que pode determinar um terceiro elemento chamado interpretante, que também se relaciona com o objecto. O signo ou representante é aquilo que substitui qualquer coisa por alguém, isto é, significa na ausência. O interpretante é o conceito mental do utente do signo, seja orador ou ouvinte. Descodificar é uma actividade tão importante como codificar. Peirce produziu três tipos de signo (1978: 148-165).

Os signos dividem-se em ícones, índices e símbolos. Um ícone é um substituto de uma coisa a que se assemelha. Uma mensagem material como um quadro é um elemento convencional no seu modo de representação. As fotografias são elementos icónicos. A fotografia no BI (in Pt) ou Carteira de Identidade (in Br) é um elemento icónico que me representa. Um índice é um elemento de autenticidade. Um relógio indica-nos as horas. Um barómetro com baixa pressão e o ar húmido são índices de chuva próxima. Diz-se que não há fumo (índice) sem fogo (realidade). Um índice é uma representação que reenvia para o seu objecto não pela semelhança ou analogia, mas porque há uma ligação dinâmica. O símbolo é uma réplica ou materialização de uma palavra pronunciada. A bandeira nacional ou um sinal do código de estrada são símbolos. Um símbolo é um signo próprio para declarar que o conjunto de objectos denotados por um conjunto de índices que se lhe associam. Um símbolo não indica uma coisa em particular, denota um género de coisa.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

O2O na Política

"One Two One, argh!..."

Viver sem marketing? Impossível! O marketing faz parte da nossa vida e é quase legítimo dizer que todos os passos que damos são, de algum modo, influenciados por técnicas de marketing. As pessoas começaram a ganhar consciência de que é mais fácil passar mensagens estruturadas e específicas para quem se quer dirigir.

«O melhor exemplo de marketing O2O são os namorados porque dizem aquilo que o outro quer ouvir e quando não dizem há pequenas discussões. As pessoas vivem uma para a outra e cada uma "vende" aquilo que tem para vender e a melhor maneira de vender é sabendo, porque já estudou, aquilo que o outro compra».
(Eduardo Madeira Correia)

No marketing político, temos primeiro de perceber que a grande diferença que existe é a de que se está a pensar com um candidato e não num produto, mas basicamente as técnicas são as mesmas.

"Quando nós vendemos um detergente dizemos que ele tira melhor as nódoas, faz mais branco e que dá menos trabalho na lavagem. No caso do político dizemos que ele tira melhor as nódoas porque é incorruptível, faz mais branco porque sabe o que quer e dá menos trabalho às pessoas porque podem confiar nele. No fundo, as mensagens e as técnicas são rigorosamente as mesmas com destinatários diferentes", explica Eduardo Madeira Correia.

Deste modo, também é possível identificar técnicas de marketing O2O na política. O marketing O2O dos políticos é feito quando eles fazem as visitas e falam com as pessoas uma a uma e tentam resolver os problemas um a um. Os políticos cada vez mais dirigem-se aos consumidores com mensagens estruturadas, procurando despertar no consumidor um reconhecimento.

A ideia é ficar a pensar que o político Z conhece o meu problema, enquanto consumidor. A sua campanha é uma resposta a esse problema. Neste caso, possivelmente, o político tem o meu voto porque ele foi capaz de identificar o meu problema e encontrar solução - dirigiu-se a mim.

Esta forma de pensar nas campanhas é marketing O2O. Outro exemplo dado por Madeira Correia refere-se aos comícios ingleses. Nestes, "as pessoas fazem perguntas e a resposta dos políticos é para aquela pergunta e para aquela pessoa - isto é marketing O2O. Responder e dar satisfação à necessidade manifestada por uma pessoa. Os ingleses são especialistas no marketing político O2O porque, como têm os deputados por círculos uninominais, eles vão visitar as pessoas a casa e fazem isso desde tempos imemoriais. Ainda não se falava em marketing O2O, mas já se praticava. Iam a casa das pessoas e perguntavam quais eram os problemas e comprometiam-se a resolvê-los. Tal como fazem os padres nas províncias. A tradição é, na Páscoa, o padre ir visitar os seus paroquianos. Os paroquianos visitam o padre durante o ano todo e, na Páscoa, o padre vai a casa de cada um e deve mostrar que conhece a vida dos paroquianos para conseguir "vender" a sua fé e a religião. Este é um exemplo de marketing O2O".

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Condições Sociais da Exclusão

“…é preciso enfrentar seriamente o problema da
diversidade sociocultural dos estudantes”

Existem algumas limitações relativamente altas nas instituições, no que diz respeito a capacidade de contribuir para a melhoria da condição social das culturas menos privilegiadas na hierarquia dos recursos culturais। Esse quadro vem a se agravar nas comunidades rurais, em bairros de habitação social e locais de concentração de famílias portadoras das marcas da desqualificação aguda, somados ao despreparo de alguns dos agentes educacionais, que não foram minimamente preparados para estás situações, o panorama somente piora.

Diante de toda essa diversidade cultural que coabita no país, urge a necessidade de serem repensados os métodos educacionais. O insucesso escolar acaba por ser fomentado por essa pluralidade. O método generalista estabelecido não consegue envolver a todos e põem à margem dessa educação alguém que não se reconhece em meio às figuras que encontra nos livros. Muitas vezes este aluno é envolvido numa perspectiva pré-concebida, onde a certeza de seu fracasso parte do próprio agente educacional. Por achar que esse aluno é incapaz, “tratá-lo-á de maneira diferente que aquela adoptada para com os demais” tornando-se assim factor de alta influência neste insucesso.

Pois fica prioritário atacar os princípios estruturados que regem as relações de poder entre as classes, nomeadamente as desigualdade das condições de aprendizagem. Que beneficiam alguns e detrimento de outros. Tornando largo as paredes que dividem o trabalho intelectual do trabalho braçal. Pois aqueles que pertencem a cultura corrente, transitam sem muitos problemas pelo período escolar, por reconhecer-se no método, tem maiores oportunidades no mercado de trabalho. Pois os índices de desemprego são significantemente menores entre os possuidores de um diploma académico, do que entre os que abandonam a escola ou mesmo aqueles que tem uma escolaridade obrigatória.

Longe de um resultado, a sociedade arma-se com soluções de efeito duvidoso que trabalhadas ao curto prazo, permanecem longe de dar um resultado satisfatório. Ficam então conhecidos dos filhos, a mesma fórmula que um dia excluiu os seus pais. A engrenagem do fracasso acaba persistindo por gerações, fazendo com que os jovens sejam expostos ao, quase certo, desemprego ou, que transite de emprego em emprego sem segurança ou qualquer outra certeza. Esses são postos de lado pela sociedade, numa quantidade sempre crescente. É necessário reformular políticas de relacionamento interculturais que possibilitem um maior equilíbrio entre as classes.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Vendendo Experiências para o Cliente

Tell me and I’ll forget,
Show me and I might remember,
involve me and I’ll understand.
(Benjamin Franklin)

‘30 Dias ou seu dinheiro de volta!’

Embora os velhos conceitos de marketing ainda sejam bastante funcionais, tornaram-se tão básicos que muitas vezes não conseguem auxiliar uma organização no alcance dos seus objectivos. Pois, apesar da teoria do marketing tradicional focar-se no cliente, na prática muitos destes conceitos focam-se apenas no produto. Na contramão dessa ideia nasce a vertente do Marketing Experiencial.
O que é mais interessante neste tipo abordagem é que, o produto é posto a prova, pois é inserido no quotidiano do cliente na tentativa que este absorva-o transformando o seu uso em um hábito, uma necessidade ou mesmo nos casos mais extremos, parte importante da sua vida. Tomemos como incasável exemplo, os iPod’s da Apple. Aqui foram usadas, abordagens da experiência focada no usuário e na situação de uso (que transmite a ideia de um estilo de vida simples e dotado de um certo charme) e considera o quanto as pessoas podem ter emoções por produtos tecnológicos que pensam nos clientes.
A maioria das empresas ainda buscam apenas um consumidor e pouco se preocupam com a sua experiência, como um cliente que consome. Isto é, o serviço muitas vezes nem é tão ruim, mas a manutenção dos contactos com clientes são raros, e o Customer Relationship Management é muito básico para ser considerado uma relação. Ao mesmo tempo sabemos como é importante a satisfação do cliente e como isso interfere na fidelização e no valor de longo prazo que ele terá para nós.
Foi no ambiente virtual dos computadores, onde Marketing Experiencial foi primeiro implementado, hoje já encontramos complexos sistemas operacionais para computador em formato ‘Live CD’. Que não precisam ser instalados em nossas máquinas, funcionam apenas a partir do CD Room, a exemplo do Ubuntu Experience. Grande número de outros programas em modelo ‘30-day trial’, nos permitem seu uso em uma versão ‘free’ num determinado tempo, que é geralmente de 30 dias.
O sucesso desta Modalidade de Marketing não fica só no mundo virtual. Empresas do ramo de telecomunicações, calçados e até automóveis a muito perceberam que este é hoje uma dos melhores caminhos para passar directo do estágio da venda para a fidelização, já que a experimentação aconteceu antes. Uma óptima solução, haja vista que os produtos têm ficado cada vez mais iguais entre si, a experiência causada por este processo pode ser a unique selling proposition deles. Oferecidos em formato ‘tryal’, ou Test Drives, amostras grátis e de outros vários modos.
Mas tudo deve ser feito de maneira estudada e fundamentada, que para que a não crie impressões erradas do seu produto/serviço, enfim, o importante é analisar se é conveniente utilizar todos os fornecedores de experiência, ou só alguns. Assim sendo, devemos estudar se é preciso gerar uma experiência holística ou mesmo específica. A segmentação adequada também é um tema que precisa ser analisado: às vezes, é necessário gerar experiências diferentes pois os grupos não são uniformes.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

O Futuro da Televisão e a Televisão do Futuro

A televisão na era digital: Ciclo de debates universitários

A Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa, recebeu no dia 27 de Março, o Ciclo de Debates Universitários sobre a Televisão na Era Digital, no âmbito das comemorações dos 50 anos da RTP. Com as participações do Ministro dos Assuntos Parlamentares, Dr. Augusto Santos Silva e do Dr. Almerindo Marques, Presidente do Conselho de Administração da RTP. O debate tem início com a comunicação do Prof. Doutor Francisco de Campos intitulada “IPTV: A televisão para um novo estilo de vida”. Os comentários ficam a cargo de Dr. Francisco Mascarenhas, director de engenharia e tecnologias da RTP, e de Dr. Jorge Wemans, director da RTP2 numa vertente mais tecnológica em relação aos conteúdos. E finalmente como moderador, Dr. André Sendin, professor da ESCS.

Dr. Augusto Santos Silva:
O Dr. Augusto Santos Silva, expôs o conceito de que o aparecimento da Televisão Digital Terrestre (T.D.T.) poderá trazer não só uma revolução para a televisão, mas também para os hábitos comunicacionais existentes. O Ministro foi claro em dizer que a era digital traz consigo consequências que podem vir a mudar a maneira como são transmitidos e prestados os serviços de comunicação social. A exemplo do que se passa pelo contexto europeu, a televisão em Portugal está diante de uma nova possibilidade de mostrar os seus produtos e serviços.

As mudanças residem no facto que a “União Europeia iniciou uma revisão cirúrgica da legislação sobre a televisão nos seus estados membros”. Os serviços de comunicação audiovisuais ‘modernos’ passam-se a integrar no conceito tradicional de televisão. Com a chegada dos serviços ADSL, ocorreu a possibilidade de surgimento de canais dos mais variados formatos de conteúdo. E ainda na internet, temos a oportunidade de utilizarmos uma televisão, programada para vermos o que queremos, quando e como entendermos.

Mas essa multiplicação de conteúdos está a caminho de ser colocada sobre o mesmo conjunto de leis que hoje regem o formato da comunicação social já estabelecido. Segundo Dr. Silva, a mutação tecnológica presente não implica o abandono de todas as políticas públicas e funcionais do sector, algumas delas devem ser apenas adaptadas para que se contextualizem.
Mas o que pode haver de novo nessa política pública?

1. Modificações necessárias na matéria de regulação dos direitos de entrada no audiovisual: hoje faz-se por licenciamento ou autorização – por parte de uma instituição independente do estado mas com nomeação governamental – os canais de acesso livre (foram licenciados) ou outros – de serviço público – são concessão e os da rede cabo são apenas autorizados. Estas barreiras se fazem sentido para os fins de bens públicos, deixarão de fazer sentido no caso dos conteúdos disponíveis na Internet.
Proposta: quando os serviços televisivos são transmitidos através da Internet (através de registo aberto) terão apenas de se registar, sem qualquer barreira à entrada. Mas no exercício da actividade de televisão, deverá haver uma neutralidade tecnológica, com igualdade de tratamento jurídico quando aos seus conteúdos.

Segundo o Ministro, as normas reguladoras serão diferentes consoante a natureza e a plataforma desses canais. As obrigações gerais referem-se aos canais generalistas de cobertura nacional (aí a lei deve ser um pouco mais exigente). Teremos também uma legislação mais flexível no caso dos canais temáticos e que não têm uma cobertura nacional.

Será preparado um concurso para a televisão digital terrestre: por isso, será necessário mudar as leis; mas o governo não tem ainda a urgência em aprovar uma lei quanto aos serviços não lineares.

1. Pelo acordo Geral entre os ministros da União Europeia. Caberá à presidência portuguesa no segundo semestre terminar a directiva comunitária para a lei da televisão digital terrestre;
2. Política pública para a comunicação social: o analógico em TV vai terminar. O compromisso europeu é que as emissões analógicas terminem até 2012. Mas a TV que ocupa o espaço hertziano é o que garante o acesso total gratuito e só o poderemos desligar quando houver digital para todos e principalmente, o direito de acesso à informação.
3. Sobre a política de concorrência: a T.D.T. terá um acesso semelhante ao que vemos na TV hoje. Em Portugal, deverá aparecer um operador para concorrer com a Rede Cabo.

O modelo do concurso: modelo separado – dois concursos – um para a atribuição para a atribuição da licença de transmissão e outro para a selecção de PayTV. Vantagem deste modelo separado: tornar a operação Multiplexer de canais generalistas totalmente independente. Para que a TV digital terrestre tenha vencimento é muito importante que os actuais operadores de TV estejam nesta era digital. É muito importante que os nossos operadores ‘históricos’ se modernizem, aderindo a esta nova era digital e, principalmente, o operador público.

Dr. Francisco Mascarenhas:
Na intervenção do Dr. Eng. Francisco Mascarenhas, pode-se observar a vertente tecnológica deste seminário. Fomos expostos a uma explicação sobre o caminho que a RTP traçou para se preparar para a nova era da televisão. Pois tendo a distribuição do sinal de Televisão como ferramentas a radiodifusão, os satélites, o cabo, a própria Internet e o sistema ADSL, a dita TV do ‘futuro’ terá como canais de distribuição apenas o Satélite; o cabo; a Internet, o sistema ADSL e a TV móvel. Os programas serão distribuídos por: VHS DVD; iPod; Pay Per View; Video on demand.

Segundo o Dr. Mascarenhas, nós teremos muitos e variados métodos de chegar ao receptor e que precisamos nos perguntar: Como é que poderemos viver neste mundo competitivo?
1. Apostar na presença dos seus conteúdos em todos (ou quase todos) os meios de difusão.
2. Garantir a diversificação e actualidade dos seus conteúdos, adequando-os aos meios de difusão utilizados;

Conteúdos:
1. Estúdios de produção de Programas e Informação (com meios adequados; adoptando meios produtivos com alta eficiência e meios económicos);
2. Produção de preços competitivos e tecnologia que facilite a interoperabilidade com os novos meios de difusão.
3. Cadeia de produção baseada em servidores e redes de alto débito;
4. Garantir uma correcta gestão da mudança (há que adequar todos os meios);
5. Investir, por isso, na formação e requalificação dos seus trabalhadores

A RTP tem apostado na adaptação de todos os conteúdos para a televisão do futuro. Criando “um dispositivo interno de rede para os operadores de distribuição através de processos rápidos e eficientes; Economia de espaços: uma tape do novo robot (500gb = 30mbpor segundo 25 horas) há uma redução substancial do número de cassetes”. Até Setembro deste ano todos os canais da RTP deverão estar a funcionar sob este novo processo.

Dr. Francisco Campos:
Da Universidade de Santiago de Compostela, o Professor Francisco Campos, apresentou-nos uma visão ‘da T.D.T. até a futura Internet TV’, numa óptica espanhola e europeia. Após alguns dados técnicos sobre as perspectivas do futuro das conexões de internet e suas novas funções, podemos perceber que, quanto mais avanços tecnológicos existem para nos facilitar a vida, continuamos com cada vez menos tempo. Em alguns do slides apresentados, continham informações sobre a visão de uma convergência dos aparelhos tecnológicos de comunicação social, dando origem a uma era digital a partir da segunda década do século XXI.
Não há nada grátis: O tempo é o factor crítico da mudança na economia industrial, a divisa mais valiosa da sociedade pós-industrial é a atenção. A atenção tenderá cada vez mais a centrar-se no preço e, o que o desejo terá que pagar por ela (a atenção), o que supõe pensar mais na qualidade do que na quantidade: Portanto: prestemos atenção ao gratuito!

Dr. Jorge Wemans:
Segundo Wemans, a televisão como a conhecíamos há alguns anos passará a ser tratada como meio de comunicação social ‘tradicional’ que possivelmente ocupará em nossas cabeças um lugar ao ‘lado do rádio’. Teremos quase sempre a oferta a comandar a procura: quanto mais tecnologias houver maior será a procura, porque maior a oferta. As tendências indiciam que num prazo mais ou menos curto teremos tudo num mesmo aparelho com possibilidades audiovisuais. Neste campo não basta procurar interpretar o que pode ser o futuro: tem de haver uma opção e uma vontade para vermos o futuro. Além das tendências e da tecnologia, há ainda outras possibilidades e necessidades de termos opções colectivas.
Enquanto essa ‘colectividade organizada’ poderemos ter a opção de dizer se queremos ou não certos programas. No contexto europeu e em Portugal, deveram poder continuar a ter a TV como até então a tem ou optar pelas novas fórmulas.

domingo, 29 de abril de 2007

Whoa is Me?

Então. Como nos vêem fora de casa?

Tenho me tornado cada vez mais eremita, tenho sentido menos necessidade de convivência com ‘pessoas reais’, mas em minha “janela” para o mundo, sempre ligada, vivo a transitar por entre páginas de livros muitas vezes não bem escritos, que não me afastam de buscar algo novo para pensar. Faz quanto tempo que não encontro alguém realmente impressionante, daquelas pessoas que você perderia tardes a conversar sobre os mais diversos assuntos. A quanto tempo não encontro alguém que me diga algo que ainda não sei, ou pelo menos me mostre uma maneira nova de enxergar o que já sei.

Realmente, sei que não posso achar essas coisas vivendo no isolamento, mas depois de algum tempo você começa a perceber que não devemos procurar as coisas. A muito percebi, que os melhores amigos que eu já havia feito na vida, apareceram sem que eu os procurasse, não os fui buscar em parte alguma. Mas agora, vivendo aqui, longe de casa como vivo, acho que cresci em alguns aspectos. Já percebo o mundo de uma outra maneira e espero que esta me seja útil. Já não vejo meu país como antes, já não vejo o povo e suas atitudes como antes. Tornei-me um estranho.

Após ter experimentado o sabor dos preconceitos, meus olhos estão mais eficientes e ouvidos ficaram mais atentos. Eu poucas vezes fui directamente alvo de situações em que o preconceito manifestou-se, mas para uma boa compensação, alguns anos de leitura deixaram-me muito sensível, ao ponto de me magoar com a dor alheia. Meu estômago não consegue digerir os sapos ao molho de bacalhau, servidos ainda quentes por uma sociedade tão frágil e corrompida quanto a que pertenço. O que me causa confusão é que realmente não estamos certos, o tempo inteiro.

Meios de comunicação venderam uma imagem desagradável do Brasil. Algumas pessoas ainda pensam que sei capoeira ou que danço samba. Algo que até gostaria de saber, não seria mal, verdadeira pena nunca ter levado jeito. No entanto, não foram essas pequenas ideias preconcebidas que fizeram-me perceber outros tipos de juízos que são feitos de nós. Quando ainda morava em Salvador, lembro-me sempre de ter ajudado os estrangeiros que necessitavam de informações (claro que dentro das possibilidades do meu inglês) na altura, não sabia muito (ainda hoje não sei muito, mas que se importa).

Mas acho que como eu, quase todos no Brasil, tem esse espírito solidário e boa disposição para ajudar, informar e muitas vezes existem até aqueles dispostos a carregar sacolas na ladeira da Lapa. Enquanto isso, noutros locais do mundo, você é visto como? Posso dizer que a imagem do povo sempre alegre e bem-disposto, não é só o que vêem, nem tão pouco a imagem dos exímios dançarinos carnavalescos ou lutadores de capoeira, nosso povo tem antes disso uma imagem de gente que não se deve dar muita confiança, claro, nem todos pensam assim.

Por aqui, ainda não vi se quer um único brasileiro trabalhando perto de uma caixa registradora, não é desconfiança, é que nossas notas em matemática devem ser ruins. Algumas lojas de produtos de valores agregados, evitam a contratação de imigrantes brasileiros. Somos desajeitados, pode ser que venhamos a partir qualquer coisa por lá. Agora já como um cliente, somos muito bem tratados. Em algumas lojas, quando percebem que você é brasileiro, prontamente um segurança começa a segui-lo para que você não se perca. Particularmente, acho muito educado da parte deles.

Eu pessoalmente, tive um incidente numa loja de produtos da China, fui seguido de perto pelo proprietário da loja que insistiu em dar mais atenção do que eu julgava necessário. Como todos os que me conhecem podem prever, o desfecho final não foi muito engraçado. Quantas vezes, quando trabalhava no “Palmeiras Café”, fui questionado “…este troco está certo?”. Portugueses marotos, sempre desconfiados de nossas capacidades matemáticas. Por fim, penso que esse acolhimento é uma coisa muito boa, faz você sentir-se como na casa do tio Zeca, Irmão da avó do
primo do seu pai (o típico parente que você só conhece em funerais, e nunca mais vê).

Mas não posso mandar só abaixo isso aqui, temos que perceber onde estamos, nessa relação entre proprietários e inquilinos, nos brasileiros somos realmente grande invasores, as taxas de desemprego no velho continente nunca estiveram tão altas, mas não é só o desemprego que ajudamos a aumentar. Actualmente, mais de metade das famílias não têm qualquer filho e 24% optam por ter um único filho. Apenas 3% dos casais têm três ou mais filhos. A taxa de natalidade que caminhava abaixo dos 0,3 filhos por casal, após a chegada das levas de imigrantes, já está em qualquer coisa na ordem dos 1,1. São realmente dados oficiais. Os canais portugueses são chatos.

Penso que quando estamos na casa de outros, temos que realmente agir com certa formalidade e na questão formalidade somos realmente mestres. Nenhum povo do mundo consegue a façanha de por o carro parado numa esquina, sobre uma faixa de pedestres, em frente a um semáforo, com o som alto no melhor estilo do “Funk Carioca”, com as letras acompanhadas na íntegra, pelos 8 ocupantes do dito veiculo. Esse tipo de coisa me faz pensar no que estava passando pela cabeça do Fernando Henrique Cardoso quando chamou os Brasileiros de “matutos”. Não me lembro em que contexto aconteceu, mas tenho certeza que tornaria o argumento mais forte se ele tivesse ilustrado com um exemplo de um brasileiro atendendo o celular nos comboios portugueses. Realmente bizarro!

Certa feita no Aeroporto de Madrid, um casal Norte-americano conversava comigo sobre o preconceito que os brasileiros sofrem na Espanha, apesar de ter muito pouca afinidade com o povo anglo-saxão, a conversa desenrolava-se bem, até que em determinado momento fomos interrompidos por uma senhora brasileira, (que as vezes parecia um senhor). Ela dizia como era sua vida na Alemanha. Com um daqueles portugueses (língua) bizarros, intercalados com os longos abanares de suas longas unhas vermelhas, contava-nos que no começo foi muito mal tratada, e como seu sofrimento havia acabado quando que por encanto conheceu o Hanz(?) seu actual marido e que agora com cidadania alemã, sentia-se a vontade, para “armar o barraco” onde quer que fosse.

O Sr. Cardoso me parece as vezes ter razão na questão da nossa “matutagem”, depois que vi o documentário “Muito Alem do Cidadão Kane” feito pela BBC de Londres, sobre o Brasil, descobri quem realmente sou. Sou apenas um coitado, manobrado pelo canal que foi escolhido pelo controle remoto que está na minha mão. Por aqui há mendigos que falam 3 idiomas e com muita dificuldade você se forma no Brasil e leva para o caixão dúvidas de português entre o “mau com u e mal com l”. Como é possível que caminhemos contando carnavais? Fazendo festinhas aos desconhecidos. Vendo um alguém especial em quem muitas vezes é muito menos especial que você, o grande herói quotidiano.

Não quis ter nesse texto uma opinião agressiva, apenas coloquei algumas coisas que rondam a minha cabeça desde que cá cheguei, é uma pena que nosso país seja tão grande que nos fez perder a noção de civilidade. É realmente triste ver que poucos sabem cantar o Hino Nacional ou o da Bandeira, vá lá que isso não lhe valha de muito, é verdade. Somos o país mais desorganizado do mundo, nenhuma geografia é tão complexa como a nossa. A nossa fórmula de república é altamente estranha. Somos forçados a comer a programação do legado ditatorial do Dr. Marinho e de sobremesa as suas cópias toscas. Por isso não é de admirar o nosso modo de viver e o nosso jeitinho brasileiro. Estamos nos tornando um retrato da novela da 20:00h.

Deixo vocês com algumas perguntas que sempre ouço, quando tenho ânimo para conversar com o povo na faculdade: Não há classe média no Brasil? Não é normal os homossexuais beijarem-se nos Shopping Centers ou em locais públicos? Não há muitos negros no Brasil, pois não? Quer dizer que vossas novelas não reflectem vossa realidade? Quer dizer que vocês não são tão liberais quando pensamos?

Você se conhece?